Da operação à estratégia: o que separa quem executa de quem influencia decisões, com Fabíola Garcia
Conheça Fabíola Garcia, profissional de tecnologia com mais de 10 anos de experiência, que construiu sua carreira passando por suporte técnico, redes, arquitetura e cloud até chegar à posição de Senior Technical Account Manager na AWS, onde atua com clientes estratégicos nos Estados Unidos. Sua trajetória também é marcada por liderança técnica, transformação digital, desenvolvimento de carreira e defesa da inclusão de mulheres na tecnologia.
Edição WoMakersCode
Muitas carreiras em tecnologia começam na execução: resolvendo problemas, lidando com incidentes e garantindo que os sistemas funcionem. O desafio é transformar essa experiência técnica em espaço para participar de decisões estratégicas.
É esse caminho que marca a trajetória de Fabíola Garcia. Com mais de dez anos de experiência, ela passou por suporte técnico, redes, arquitetura, cloud e hoje atua como Senior Technical Account Manager na AWS, trabalhando com clientes estratégicos nos Estados Unidos.
Nesta entrevista, Fabíola fala sobre transições de carreira, desenvolvimento técnico, liderança, inclusão e os aprendizados que ajudaram a ampliar seu espaço de atuação.
Da Operação Técnica à Mesa de Decisões em Big Tech
💬 Como sua trajetória em tecnologia foi se construindo?
Comecei em suporte de redes na AT&T, em 2011, enquanto cursava Engenharia da Computação. Depois passei por implantação de redes e, em 2015, entrei na BT. Lá, fui de analista a funções de design e liderança técnica de redes. Passei a participar de decisões de arquitetura, projetos de transformação e conversas com clientes sobre os impactos das escolhas técnicas.
Em 2021, entrei na AWS como Technical Account Manager. Hoje sou Senior TAM e trabalho com clientes estratégicos nos Estados Unidos, em um contexto que envolve infraestrutura e inteligência artificial. A base de redes continua presente: entender dependências, investigar falhas e conhecer a realidade da operação ajuda a fazer recomendações melhores. Ao longo da carreira, fui ampliando o alcance dessa contribuição.
💬 Quando você percebeu que queria seguir uma carreira técnica?
Foi uma combinação de escolhas e descobertas. Eu já cursava Engenharia da Computação quando trabalhava com suporte, mas o caminho até cloud e IA foi se definindo com a experiência. Em 2014, procurei orientação profissional na faculdade porque queria entender meus próximos passos. Em 2019, já estava buscando uma oportunidade na AWS, onde entrei em 2021.
Olhando para trás, vejo decisões concretas de buscar orientação, estudar e me candidatar, mesmo sem ter um roteiro completo da carreira. Acho que isso pode aliviar um pouco a pressão de quem está começando. Você pode escolher um próximo passo e ajustar a direção conforme conhece melhor o trabalho e seus interesses.
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14 de set. de 2026
💬 O que a experiência com redes ainda traz para o seu trabalho hoje?
Principalmente a forma de investigar problemas. Redes e infraestrutura exigem entender dependências, testar hipóteses e acompanhar o caminho completo de uma falha. Essa base continua sendo útil em cloud e em ambientes que sustentam aplicações de inteligência artificial.
Também carrego a atenção ao que acontece depois da implementação. Quem vai operar essa solução? Como vamos perceber que algo está errado? O que acontece se a demanda crescer? Ter trabalhado perto da operação ajuda a fazer essas perguntas antes que uma escolha de arquitetura se transforme em um problema para o cliente.
O Salto de Nível: Quando o Impacto Pessoal Vira Valor de Negócio
💬 Em que momento você percebeu que sua carreira tinha mudado de nível?
Olhando para trás, a progressão na BT mostra bem essa mudança. Entrei como analista de redes e depois assumi funções de design e liderança técnica. Meu trabalho passou a incluir decisões de arquitetura, planejamento de mudanças e orientação de outras pessoas. Recebi também um reconhecimento global da BT por um trabalho de documentação, redesenho e melhoria da rede de um cliente.
Essas experiências ajudam a enxergar uma evolução que, no dia a dia, pode passar despercebida. Você continua tendo dúvidas, mas começa a perceber que consegue assumir problemas mais amplos e contribuir para o trabalho de outras pessoas.
💬 Quais desafios mais fizeram você crescer?
Os projetos de transição na BT exigiram bastante crescimento. Trabalhei com transferência de conhecimento, preparação de equipes de suporte e mudanças envolvendo fornecedores e ambientes de clientes. Além de conhecer a tecnologia, era preciso organizar a execução para que as pessoas conseguissem operar o ambiente depois da mudança.
A migração para cloud e, mais tarde, a mudança para os Estados Unidos também trouxeram novos contextos de trabalho. Outro aprendizado contínuo é criar espaço para antecipar problemas quando você tem muita experiência em resolver urgências. Tenho buscado entender melhor o objetivo de cada demanda antes de partir para a execução.
💬 O que mudou na forma como você enxerga seu trabalho hoje?
Passei a dar mais atenção ao contexto de cada solicitação. Um pedido de capacidade computacional, por exemplo, pode estar ligado a um lançamento ou a uma expansão importante. Entender qual projeto depende daquilo, o impacto de um atraso e a expectativa de crescimento muda a recomendação técnica e a prioridade da conversa.
Também procuro avaliar meu trabalho pelo que ele ajuda a tornar possível. Resolver um incidente tem valor imediato. Identificar um padrão que permita evitar novos incidentes pode melhorar a operação por muito mais tempo. Desenvolver esse olhar é uma prática contínua, inclusive no meu momento de carreira.
Além do Discurso: O Que Realmente Trava a Carreira das Mulheres em Tech
💬 Quais desafios ainda são pouco discutidos quando falamos sobre mulheres avançando em tecnologia?
Acredito que precisamos falar mais sobre como a credibilidade e as oportunidades são distribuídas. Quem recebe um projeto importante mesmo sem ter feito algo idêntico antes? Quem é lembrado para apresentar uma proposta? Quem tem suas recomendações consideradas na discussão?
Essas perguntas ajudam a olhar além da contratação. Uma profissional pode estar na equipe e ainda ter pouco acesso às experiências que a preparariam para o próximo nível. Também acho importante avaliar se comportamentos como firmeza, dúvida e ambição são interpretados da mesma maneira quando vêm de pessoas diferentes.
💬 A pressão para se atualizar impacta homens e mulheres da mesma forma?
Eu não partiria do pressuposto de que todas as pessoas têm as mesmas condições para responder a essa cobrança. Tempo disponível, responsabilidades de cuidado e acesso a apoio fazem diferença. A pressão também pode pesar mais quando a pessoa sente que precisa estar sempre muito preparada para ter sua competência reconhecida.
Por isso, considero importante que as empresas reservem tempo de trabalho e recursos para o desenvolvimento. Para cada profissional, vale escolher o que estudar com base nos problemas que quer aprender a resolver. Em uma área tão ampla, tentar acompanhar tudo pode tornar o aprendizado uma fonte permanente de cobrança.
💬 O que você gostaria de ter ouvido no início da carreira?
Que fazer boas perguntas também demonstra competência. Você pode ter uma base técnica sólida e precisar entender melhor o contexto antes de recomendar alguma coisa. Perguntar qual é o objetivo ou o que acontece se um problema não for resolvido pode mudar completamente a qualidade da sua contribuição.
Também gostaria de ter ouvido mais sobre a importância de explicar o impacto do trabalho. Quem acompanha uma entrega nem sempre enxerga sua complexidade ou o risco que ela evitou. Aprender a comunicar isso ajuda outras pessoas a entenderem seu valor e a tomarem decisões melhores.
💬 Qual é a responsabilidade das empresas no avanço das mulheres em tecnologia?
As empresas têm responsabilidade sobre as condições de entrada, permanência e crescimento. Isso inclui examinar como selecionam pessoas, distribuem projetos e decidem promoções. Os critérios precisam ser claros o suficiente para que uma profissional saiba o que se espera dela e tenha acesso às oportunidades necessárias para demonstrar isso.
Também cabe à empresa oferecer condições de aprendizado e canais confiáveis para lidar com problemas. Cursos e mentorias podem ajudar muito, mas precisam vir acompanhados de decisões de gestão que permitam às mulheres assumir responsabilidades, receber reconhecimento e participar dos espaços onde as prioridades são definidas.
💬 Como reconhecer uma empresa que realmente promove inclusão?
Eu olharia para decisões concretas do dia a dia. Quem recebe reconhecimento por uma ideia? Como uma liderança reage quando alguém aponta uma barreira? Quem tem acesso a projetos com visibilidade e a pessoas que podem apoiar seu crescimento?
Para mim, uma prática consistente é conseguir explicar os critérios de uma promoção e aplicá-los com coerência. Outra é perceber quando as oportunidades estão sempre chegando às mesmas pessoas e corrigir isso. Também considero importante acompanhar a permanência e a progressão das profissionais. Esses resultados ajudam a avaliar se as iniciativas estão funcionando e onde ainda é preciso agir.
Estratégias Práticas Para Liderar com Inclusão, Mentoria e Crescimento
💬 Quais três práticas você recomendaria para uma liderança que quer construir equipes mais diversas?
Primeiro, deixe claros os critérios de contratação e crescimento. Explique quais competências são necessárias e quais evidências serão consideradas, evitando avaliações vagas sobre quem tem “perfil” para uma função.
Segundo, acompanhe a distribuição das oportunidades. Observe quem lidera projetos, apresenta resultados e participa das conversas com clientes e lideranças. Ofereça apoio para que mais pessoas possam assumir essas responsabilidades.
Terceiro, transforme a escuta em ação. Quando alguém relata uma dificuldade, investigue o que pode mudar no processo ou no ambiente. Depois, volte à pessoa para explicar o que foi feito. Essa continuidade é parte de construir confiança.
💬 O que a mentoria representou na sua trajetória?
Tive uma mentoria importante durante a faculdade, que me ajudou a conseguir um emprego. Depois, sempre mantive relações de mentoria com minhas lideranças e com colegas cujo trabalho eu admirava. Esse acompanhamento foi fundamental para assumir cargos de maior responsabilidade.
Essas trocas me ajudavam a receber feedback sobre meu trabalho, construir um plano de desenvolvimento e avaliar se minhas ações estavam me aproximando dos objetivos, ajustando o caminho quando necessário. É esse apoio contínuo que procuro oferecer a outras mulheres: ajudar a definir os próximos passos e acompanhar a execução, respeitando o contexto de cada uma.
💬 Para quem está começando em cloud, dados ou IA, por onde começar?
Eu começaria por um problema pequeno e concreto. Pode ser publicar uma página simples, analisar uma planilha ou experimentar uma ferramenta de IA com informações fictícias e conferir os resultados. O objetivo inicial é conseguir concluir algo e entender como aquilo funciona.
A partir daí, escolha os fundamentos e uma formação que ajudem no próximo passo. Uma certificação pode organizar o estudo, mas vale entender o que você quer fazer com aquele conhecimento. Na minha trajetória, a experiência com redes foi uma base importante para cloud. Quem vem de outra área também pode identificar o que já sabe e construir a partir disso. Procure uma comunidade em que possa tirar dúvidas e compartilhar o que está aprendendo.
O conselho que toda mulher precisa ouvir
💬 Qual conselho você daria para as mulheres que estão começando agora?
Dê a si mesma a possibilidade de tentar uma oportunidade enquanto ainda está aprendendo. Avalie o que ela exige, reconheça a experiência que você já tem e identifique onde vai precisar de apoio. Você pode se preparar sem esperar uma sensação de segurança completa.
Também procure ambientes em que seja possível fazer perguntas e receber orientação. A forma como uma equipe responde a quem está aprendendo diz muito sobre as condições que ela oferece para crescer.
Lançamento do livro TPM – Tech Para Mulheres, projeto que reuniu Fabíola Garcia e outras mulheres da área de tecnologia para compartilhar suas trajetórias, experiências e aprendizados, com o propósito de inspirar outras mulheres em tech.
A mudança do Brasil para os Estados Unidos foi uma etapa importante da minha trajetória. Olhando para esse caminho, vejo como os aprendizados acumulados em cada experiência e a clareza sobre o que eu queria desenvolver me ajudaram a chegar até aqui. Ter objetivos claros me ajudou a escolher o que estudar e quais desafios buscar para continuar crescendo.
Ao mesmo tempo, estar aberta ao novo foi essencial para aproveitar as oportunidades que apareceram. Mudar de país significou conhecer outro contexto de trabalho, conviver com perspectivas diferentes e continuar aprendendo. Acho importante ter uma direção e também se permitir conhecer caminhos que você ainda não tinha considerado. Essa abertura fez diferença nas oportunidades que pude viver.
O RH precisa estar na mesa antes da decisão acontecer
Conheça Ester Martins, com mais de 17 anos de experiência em RH, atuando em diferentes países e contextos organizacionais. Sua trajetória é marcada por conectar estratégia, operação e tomada de decisão em ambientes complexos. Participou de projetos de transformação cultural, conduziu processos de fusões e aquisições e esteve à frente de mudanças organizacionais em larga escala, sempre com um olhar voltado para o impacto direto no negócio.
Sua atuação como HR Business Partner em regiões como América Latina, Estados Unidos e Canadá trouxe uma perspectiva rara: a necessidade de alinhar cultura, performance e estratégia em contextos globais, onde cada decisão local reverbera em múltiplas dimensões.
Além disso, Ester dedica parte de sua trajetória à formação de profissionais, atuando como mentora e apoiando iniciativas voltadas ao crescimento de mulheres na tecnologia, ampliando seu alcance para além das empresas em que atua.
A construção de ambientes onde pessoas podem pertencer, crescer e liderar - uma conversa com Ana Dourado
Conheça Ana Paula Dourado, especialista em Employer Branding, cultura organizacional e experiência da pessoa colaboradora, com uma trajetória construída em empresas como Petrobras, iFood, Natura, Bracell e Brasilcap. Atualmente, integra o Ecossistema Sankhya, onde atua na estruturação da estratégia de marca empregadora para diferentes empresas, além de contribuir para a formação de profissionais da área e ser coautora do livro *Mulheres na Gestão de Reputação*. Nesta entrevista, Ana compartilha aprendizados de sua carreira e de sua vivência como mulher negra no mercado corporativo, refletindo sobre cultura, liderança, diversidade, pertencimento, experiência das pessoas colaboradoras e os caminhos para construir ambientes onde diferentes profissionais possam crescer, ocupar espaços e liderar.